O Preço de um Vestido - 2007

Com jornadas diárias de 17 horas em troca de cama e comida, imigrantes bolivianos vivem rotina de trabalho degradante e superexploração nas confecções de roupa de São Paulo

Para entender como funciona o tráfico de mão-de-obra e como vivem os milhares de imigrantes ilegais bolivianos de São Paulo, o repórter-fotográfico Antônio Gaudério deslocou-se para La Paz com um telefone celular dotado de câmera fotográfica, uma muda de roupas e seus documentos brasileiros. Procurou anúncios de trabalho, conversou com agenciadores e até se diplomou como overloquista em uma escola de La Paz. Tudo para ser aceito em uma das centenas de confecções controladas por bolivianos e coreanos que existem em São Paulo. Gaudério submeteu-se a jornadas de trabalho de 17 horas. Sem nenhum direito trabalhista, ele teve que aceitar um contrato verbal pelo qual trabalharia três meses sem salário, apenas em troca de cama e comida. "Depois a gente conversa", disse-lhe o chefe.



ANTÔNIO GAUDÉRIO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICO


16/11 - A CHEGADA
Começo por El Alto, cidade adjacente a La Paz, onde funciona um imenso mercado do tamanho de 350 campos de futebol, em que se compra e vende tudo: de mapas velhos escritos em japonês a velhas Mercedes-Benz e fetos de lhamas, usados em rituais de feitiçaria.
No setor de usados, compro calça, camisa, sapatos, pente, espelho de bolso e um pote de gel Didazul extra fuerte. Reparto meu cabelo ao meio, como o presidente Evo Morales e todos os imigrantes bolivianos que conheci no bairro do Brás, em São Paulo.
Compro um rádio e sintonizo nos 6.080 kHz da emissora católica São Gabriel. O locutor se expressa em amará e quéchua, línguas de origem indígena. Parece um disco em espanhol rodando ao contrário. Consigo entender "costurero", "overloquista", "Brasil" e os números dos telefones. Anoto e tento me candidatar, mas, nos primeiros tropeços do espanhol, as vagas desaparecem.

21/11 - A BUSCA
Volto para La Paz e me hospedo em um alojamento com diária de 25 bolivianos, cerca de R$ 6, na avenida Buenos Aires. A região é centro de comércio popular durante o dia e esconderijo de traficantes, drogados, bêbados, prostitutas e ladrões à noite. Entre cartazes que anunciam "Atenção, doadores de rim. Compramos o seu por até US$ 4.000", encontro ofertas de vagas para costureiros com ou sem experiência que queiram trabalhar no Brasil ou na Argentina: "Buen sueldo. US$ 150. US$ 200 [mensais]".
Ao cabo de seis dias, estou exausto, sem dormir, nauseado, com dor de cabeça, por causa do "mal de altitude" (La Paz fica 3.600 m acima do nível do mar). Piora a situação uma diarréia causada pelo pão com terra, frango com terra, suco de laranja com caldo de mão suja, tudo vendido na rua poeirenta.
Aparência miserável, estou no ponto. Vou à rua Albaroa, 195, falar pessoalmente com Julia Fernandes, dona do anúncio "Necessito costureiros para o Brasil. Ambos os sexos. Buen Sueldo".
Mais ou menos 60 anos, dona Julia é simpática. Fica acertado que me arrumará o emprego e que eu viajarei para o Brasil com um casal dentro de três ou quatro dias. Pela porta estreita entreaberta do quarto escuro, vejo um vulto de boliviano gordo que nos observa, imóvel.
Não dá certo. Dona Julia Fernandes some dois dias depois de nossa conversa.
Procuro outro anúncio, que promete "sueldo" de US$ 200 mensais. Ao telefone, um homem de voz grossa e forte encerra minhas pretensões avisando: "Só contratamos bolivianos legítimos para trabalhar para coreanos. Não ligue mais".
O jeito é apelar para os anúncios que havia recolhido em São Paulo, na feira Cantuta, no Pari, onde se reúnem aos domingos os bolivianos. Com a ajuda de uma paceña (mulher nascida em La Paz), consigo duas promessas de ser recolhido na rodoviária ao chegar a São Paulo e as dicas necessárias:
Dizem-me que devo viajar via Ciudad del Este, no Paraguai, porque a fiscalização em Corumbá (MS) está muito rigorosa. Também me orientam a fazer um curso de costura.

23/11 - NA ESCOLA
No Instituto Berlin, a 500 metros do meu alojamento, o curso normal de corte e confecção dura três meses. Em caso de urgência, pode ser feito em um mês. No meu caso, de extrema urgência, em uma semana, com aulas das 10h30 às 21h.
Pago 80 bolivianos (R$ 19) e assisto a três aulas com 11 outros alunos, alguns aspirantes a vagas em São Paulo e Buenos Aires. Deles ouço histórias de preconceito dos argentinos, que chamam os bolivianos de índios "bolitas" e "bolitas de mierda" e sabotam-lhes o trabalho. Dizem que, quando chega um boliviano, os costureiros argentinos arrancam as linhas das máquinas. São três ou quatro linhas que passam por cerca de 20 engates até chegar às agulhas. Em cada marca de máquina esse caminho é diferente. Qualquer erro no percurso não costura.

27/11 - A VIAGEM
Viajo de ônibus para Santa Cruz de la Sierra, onde pegarei o trem até a fronteira. Mas uma greve geral "democrática y contundente" convocada pelo presidente Evo Morales paralisa os transportes. Protestos pró e contra a nova Constituinte já contam com o saldo de dois cachorros degolados e duas pessoas mortas. Encontro Cleto Fernandes, seu filho Ariel e René Monzon.
Pai e filho pretendem que essa seja a última vez que trabalham como costureiros em São Paulo. O objetivo deles é levantar US$ 1.500, para fazer funcionar uma padaria em La Paz. Já Monzon, cansado de ganhar pouco como costureiro, tornou-se camelô em São Paulo. Ele passa toda a viagem tentando me convencer a ser seu sócio em um "churrasco grego" na zona central de São Paulo.
Dormimos na calçada da estação para viajar na manhã seguinte. No guarda-volumes, com a autorização do rapaz que guarda as malas, plugo meu celular para carregá-lo na única tomada de toda a estação de trem de Santa Cruz. Chega o supervisor, olha minha aparência e pergunta: "Vai pagar?".
Eu digo: "Pago. Quanto é?".
"5 bolivianos", responde o supervisor gordo com o braço estendido e a mão gorda espalmada. O valor é quase o dobro dos 3 bolivianos cobrados para guardar uma mala por 24 h.
"Tudo bem, eu pago."
"E espere lá fora."
Espero uma hora. Ao desligar da tomada, pergunto se posso pagar ao retirar a mala.
"Não. Tem que pagar agora."
Aí, permito-me uma vingança em nome de todos os miseráveis humilhados em troca de pequenos favores. Pego uma moeda de 5 bolivianos, que vale pouco mais de R$ 1, e digo:
"Este lixo é por sua energia". E, para o rapaz, que me deixou usar a tomada, dou uma nota de 20 bolivianos: "Isto é por sua solidariedade".
Depois de 20 horas no que já foi conhecido como "trem da morte", desembarcamos em Puerto Quijarro. Na imigração, René Monzon mostra seu documento boliviano, diz que vai visitar parentes em São Paulo e passa. Cleto e o filho mostram seus documentos de residentes argentinos (já trabalharam lá), e passam. Eu também passo. De Corumbá a São Paulo, são mais 22 horas de ônibus.

1º/12 - EM SP
Chego ao terminal da Barra Funda (zona oeste) e, conforme as instruções, chamo Dario (nome fictício), que logo aparece. É um jovem boliviano, com bermuda e camiseta novas da Nike, provavelmente feitas por ele mesmo.
Estranha minha aparência, que não é a de um boliviano. Pede a carteira de identidade boliviana. Digo que não tenho. Fico com medo de mostrar minha identidade e não falo meu nome completo. Dario acha esquisito. Anota todos os meus contatos da Bolívia.
Vamos para a rua Coimbra, no bairro do Brás, principal reduto de imigrantes andinos, de onde ele liga para checar minhas informações. Ele me leva para o restaurante de Jorge Heruvia, boliviano, fundador da feira Cantuta, no Pari.
Chega a mulher de Dario, boliviana, dirigindo um utilitário. Acompanham-na o filho brasileiro chamado Ronaldo e nove conterrâneos, seus empregados. Todos usam roupas novas e modernas. É sábado. Eles almoçam no restaurante para comemorar a entrega de um trabalho. Esperam até que cada um tenha um prato fundo cheio de carne de porco, milho e batata e um copo de Coca-Cola, para começar a comer -com as mãos. Depois do almoço, cada um ganha um copo de cerveja boliviana Paceña.
A mulher de Dario me faz muitas perguntas e liga para o Instituto Berlin, que confirma minha matrícula. Vamos para a oficina onde moram e trabalham os 12 que almoçaram juntos. É um pequeno sobrado, onde se espremem dez máquinas e altas pilhas de tecidos para costurar, além de beliches.
"Você vai trabalhar aqui e vai dividir o dormitório com eles", ela me diz. Logo, vamos a um templo evangélico na avenida Celso Garcia (zona leste). Embora o catolicismo seja dominante na Bolívia, as várias denominações evangélicas crescem nas áreas mais pobres. A dona da confecção quer a opinião do pastor boliviano sobre minha contratação.
O pastor lembra histórias de peruanos, paraguaios e brasileiros que roubam os bolivianos. Levam dinheiro, levam máquinas. Depois, como Pôncio Pilatos, lava as mãos: "La decisión es de ustedes". Fui jogado no olho da Celso Garcia.
Durmo na Barra Funda. Pela TV, assisto à queda do Corinthians para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. No final da tarde, volto para o terminal rodoviário e ligo para o senhor Gualter, com quem fiz contato telefônico quando estava em La Paz. Ele aparece meia hora depois. Boliviano, 45 anos, roupas simples. Dessa vez, mostro o documento de brasileiro, falo de minha infância e juventude rurais, mostro as mãos calejadas (logicamente, não digo que é por causa do guidão da motocicleta XL 87).

2/12 - NO TRABALHO
Gualter faz algumas perguntas e me leva para sua oficina, com nove máquinas de costura. No mesmo local, mora com a mulher, dois filhos e quatros outros bolivianos.
Firmamos um contrato verbal pelo qual trabalharei durante três meses, ganhando cama, comida e nenhum salário. Enquanto isso, aprenderei a costurar. No fim desse prazo, faremos novo acerto.
Durmo em uma cama quase limpa e, às 7h, começo. Pratico com retalhos durante toda a manhã e, à tarde, já costuro forro de saia. Minha maior dificuldade é distinguir a frente do verso do tecido. Paro de perguntar quando concluo que, afinal, não vai mudar a vida de ninguém algumas mulheres andarem com o forro das saias do lado do avesso.
No meio da tarde, o coreano manda 165 cortes de vestidos, para serem costurados -R$ 2 cada um. Pergunto por que tão pouco. Gualter responde que, se não pegar o serviço, haverá quem o pegue por R$ 1,50.
O coreano não dá mais as linhas de costura. Antigamente dava. Parece que ninguém naquela oficina sabe como se chama o coreano, onde ele fica, como ele é, mas todos sabem que, no caso de uma peça se perder, o coreano cobrará o preço de venda. Isto é, será descontado o trabalho de 20 para pagar uma.
Daí para a frente todos os dias trabalhamos nesses vestidos das 7h à meia-noite. Com intervalos às 8h para o desjejum, ao meio-dia para almoço, às 18h, para o chá, e às 22h, para o jantar.
Com o rádio o tempo todo sintonizado na estação pirata Meteoro FM, escutamos as últimas notícias da Bolívia. O locutor convoca os bolivianos para encontro na praça da Sé no Dia do Imigrante. "Meteoro FM, cien por ciento usted. Você, que trabalha de sol a sol nas oficinas de costura, sabia que na década de 80 o governo boliviano fez acordo com o governo chinês para que os chineses desenvolvessem a agricultura do nosso país?", fala o locutor, que trata indiferentemente chineses e coreanos. Expressa-se em um espanhol límpido, perfeitamente audível, apesar dos motores barulhentos das máquinas de mais de 30 anos.
"Em vez de trabalhar a terra, os chineses foram para a cidade explorar a tecelagem e a costura. Acabaram expulsos e foram para a Argentina e para o Brasil, levando junto os costureiros bolivianos, que depois trouxeram outros, que trouxeram outros, que trouxeram outros e até hoje continuam trazendo."
"Essa forma de trabalhar que nossos patrícios conhecem é dos chineses. Os chineses fazem os bolivianos trabalharem como eles, mas não precisa ser sempre assim. Nós temos o direito de sonhar com dias melhores. Você que passa anos e anos costurando e nunca comprou seu carro, sua casa, nós não podemos passar a vida sendo tratados como estrangeiros. Todos somos seres humanos. Você que está ilegal, vamos nos encontrar todos no Dia do Imigrante e fazer uma marcha por anistia e direitos humanos."
Gualter me conta que chegou ao Brasil em 1982 e trabalhou para bolivianos durante um ano e quatro meses sem receber salário. Depois passou a trabalhar com outro, que até hoje lhe deve. Sempre em jornadas das 7h à meia-noite, só folgando aos domingos. Tudo que conseguiu foi comprar as máquinas usadas com as quais oferece trabalho a recém-chegados, como eu. Nunca conseguiu comprar um carro ou uma casa. Seu sonho é parar de pagar os R$ 600 de aluguel.
A jornada diária de 17 horas sentado, com os pés nos pedais, rendeu-lhe uma úlcera varicosa na perna esquerda. Atrapalha a produtividade e impede-o de jogar futebol aos domingos.
Na sexta-feira, enquanto tomamos o chá de sultana (casca de café) com pão às 18h, com os motores das máquinas desligados para economizar energia, ouvimos a porta do estabelecimento de brasileiros se fechando. Gualter diz:
"Fecham às seis. Descansam às seis e só voltam na segunda-feira, às oito. Aqui, todos descansam às seis". Não há inveja ou desdém. É como se falasse de uma espécie diferente. Como se dissesse: "As aves se recolhem ao entardecer".
Pergunto o que faria se pudesse descansar todos os dias às 18h. Ele responde: "Não dá. O dinheiro não alcança".
Insisto: mas e se desse?
"Descansaria, assistiria ao televisor, dormiria", responde. "É muito difícil ganhar dinheiro com costura. É muito fiscal pedindo um cafezinho."
Trabalho todos os dias, caprichando para evitar que um erro grave coloque a perder a produção de mais de 20 peças.

8/12 - A FUGA
No sexto dia de trabalho, ainda não temos um vestido de R$ 2 completamente pronto. Falta colocar golas e mangas em todos eles, o que acontecerá em mais dois dias de trabalho. Então consigo permissão para ir à farmácia comprar um remédio. Fujo para nunca mais voltar.